1. Dezessete anos sem vocabulário
Durante 17 anos de chão de fábrica, eu não sabia o que era uma doença psicossocial. Não conhecia o nome burnout. Não sabia diferenciar ansiedade de estresse comum, nem enxergava a dependência química como sintoma — só como "problema pessoal" de alguém. Eu via colegas adoecerem, trocarem de comportamento, sumirem por semanas, voltarem diferentes. Via, mas não sabia o que estava vendo.
Foi quando comecei a estudar Ciência Política que tudo mudou de lugar.
2. O que a filosofia me ensinou sobre observar pessoas
Não fui atrás de Sócrates, Aristóteles, Platão ou Maquiavel para entender gestão. Fui atrás deles para entender política. Mas o método é o mesmo, seja para ler uma sociedade ou para ler uma fábrica.
Eu não fui treinado como psicólogo nem como sociólogo. Fui desenvolvendo, ano após ano, uma habilidade de observação que a Ciência Política me deu ferramenta para nomear: entender o porquê de um comportamento antes de julgá-lo. Avaliar o cenário geral — cultura da empresa, religião, tipo de liderança, ambiente tenso ou seguro — e como cada colaborador reage àquilo. Alguns crescem sob pressão. Outros adoecem sob a mesma pressão, no mesmo turno, na mesma função. A diferença não está só na pessoa. Está no cruzamento entre a pessoa e o ambiente.
Conhecimento traz poder. Você não consegue se defender de um risco que nem sabe que existe.
Hoje eu sei me proteger mentalmente. Não porque sou melhor que ninguém — porque conhecimento traz poder de decisão. Foi isso que me faltou durante 17 anos, e é isso que falta hoje para a maioria dos trabalhadores brasileiros.
3. Os números não deixam dúvida: o Brasil está adoecendo no trabalho
Enquanto eu estava no chão de fábrica sem vocabulário para nomear o que via, o país seguia acumulando um problema que hoje é público e mensurável. Em 2025, o Brasil registrou o maior número da série histórica de afastamentos do trabalho por transtornos mentais.
Ansiedade e depressão já são as condições que mais empurram esse número para cima, e juntas ocupam o segundo lugar entre todos os motivos de afastamento do país, atrás apenas das doenças da coluna.
4. Por que chegamos nesse nível?
Cruzando os dados oficiais com o que vivi e observei no chão de fábrica, três fatores se repetem:
Não é falta de gente boa nas empresas. É falta de estrutura para transformar boa intenção em prevenção real.
5. O que os dados mostram sobre prevenção
Aqui está o ponto que mais me interessa como consultor e como quem já esteve dos dois lados da mesa: existe evidência de que dá para mudar essa curva. Um estudo sobre liderança humanizada e saúde organizacional concluiu que lideranças construídas sobre empatia, comunicação assertiva, escuta ativa e segurança psicológica contribuem diretamente para reduzir fatores associados ao esgotamento profissional — sobrecarga, ambiguidade de papéis, isolamento, assédio, baixa autonomia e ausência de reconhecimento.
O mesmo estudo reforça algo que repito em toda palestra que dou: liderança humanizada não é fragilidade gerencial, é estratégia de sustentabilidade institucional. Isso não é achismo motivacional. É o que a nova NR-1 já formaliza como obrigação — monitorar riscos psicossociais dentro do próprio Programa de Gerenciamento de Riscos da empresa, e não mais como ação isolada de RH.
6. Por que a PG Consultoria aposta em palestra e escuta estruturada
Depois de 17 anos entendendo tarde demais o que estava acontecendo ao meu redor, minha convicção é simples: você não protege ninguém de um risco que a pessoa não sabe nomear.
É por isso que a PG Consultoria acredita que palestras com temas específicos sobre doenças psicossociais são uma das armas mais poderosas nessa luta — não como evento pontual de calendário, mas como porta de entrada para dar às pessoas o vocabulário que eu não tive por quase duas décadas. Nomear é o primeiro passo para se proteger.
E a segunda parte, tão importante quanto, é dar voz ativa e estrutura de escuta contínua — não a escuta informal que depende do humor do gestor no dia, mas um canal estruturado, com dados, recorrência e anonimato preservado.
Escuta ativa, indicadores de saúde mental por setor e relatório de PGR alinhado à NR-1 — tudo em um só lugar, com anonimato preservado. Para empresas que querem sair do discurso pontual e ir para a prevenção de verdade.
Conhecer a Escuta PG →7. Conclusão: nomear é o primeiro passo para prevenir
Os números mostram o tamanho do problema. A Ciência Política me ensinou a observar o porquê. E a experiência de chão de fábrica me deu a certeza de que prevenção não é discurso — é a única coisa que realmente funciona antes que a estatística vire mais um nome na lista do INSS.
Isso não me tornou vítima. Me tornou pesquisador. E é esse olhar — de dentro da fábrica, com ferramenta científica — que eu quero levar para cada empresa que ainda trata saúde psicossocial como assunto de setembro.